Agulhas e Linhas
Ponto para elas

As vovós estavam certas e não sabiam. Jovens mulheres dão adeus ao estigma de "coisas de quem não tem o que fazer" e se agarram às agulhas e linhas para mandar o estresse às favas.
Por Ellen Alaver
Começa a novela das 8. Sentada no sofá, Fabiana Uchinaka puxa sua caixa de novelos de lã e começa a tricotar mais uma colcha. Aos 21 anos, é uma exímia tricoteira. Se você achou que a cena era perfeita para o início de mais um conto de Gabriel Garcia Marques, errou. Não se trata de realismo fantástico, mas sim de uma realidade surpreendente: jovens mulheres estão às voltas com linhas e agulhas, atividades "de mulherzinha" para aliviar o estresse adquirido com as conquistas que fizeram no mercado de trabalho. Se tricô, crochê, bordado e outras trabalhos manuais eram obrigatórios na formação de uma mulher prendada, agora servem para ralaxar e ponto.
Segundo a especialista em arte-terapia Rita de Castro Pebé, de nada adianta adotar uma prática manual pura e simplesmente. É preciso gostar do se que se faz. "Se a pessoa não se interessa pela atividade, ela abandona o exercício e corre o risco de se sentir fracassada", alerta.
Fracasso é uma palavra que não consta no vocabulário da editora de moda Jussara Romão. Aos 45 anos ela só fica frustada quando não encontra tempo para executar as mil e uma idéias que tem durante seu horário de trabalho na revista Elle. "Chego em casa e corro para a minha caixa cheia de material de costura. Além de relaxar enquanto bordo, adoro o resultado do meu trabalho. Meu guarda-roupa é pura 'vintage' customizada", se orgulha.
Assim como Jussara, a professora de artes Silvia Micali, 30, valoriza os fuxicos que produz. "Minhas amigas dizem que faço trabalho de presidiária, mas enquanto costuro organizo minha vida. Com a cabeça sem estresse fica mais fácil colocar ordem na agenda", ensina a mãe de Carolina, que aos 11 anos já segue o mesmo caminho artesanal.
Trilhar os passos das ancestrais parece o caminho mais fácil para aprender a dar ponto sem nó, literalmente. Marina Wendel de Magalhães, 30, é a terceira geração de tricoteiras da família. "Gosto muito, principalmente no inverno. Além de relaxar, esquento as mãos e o colo. E como sempre tem um sobrinho nascendo, exercitamos fazendo o enxoval. Minhas sobrinhas Irene e Júlia, de 26 e 11 anos, já entraram no esquema", conta a lingüista.
Na opinião de Rita, o que torna esses trabalhos terapêuticos é a ausência de compromisso. "Nunca pensei em vender o que faço. As pessoas pedem e, quando possível, crio alguma coisa. Jamais pensei em produzir comercialmente", garante Fabiana. Talvez inconscientemente ela não queira reproduzir o estresse vivido pelas 200 tricoteiras que trabalham para Izilda Araújo, da grife Nofio. Inicialmente elas não tinha a responsabilidade da produção, mas viram nela uma chance de ajudar no orçamento familiar. A maioria tem entre 25 e 35 anos. "Ainda assim, quando encontram tempo para descansar, correm para o tricô", revela a empresária, que confecciona o tricô de grandes estilistas brasileiros.
Se os trabalhos manuais não são o forte de sua família, não é preciso desanimar. Qual cidade ou bairro que não conta com aquele bazarzinho de esquina? É nele que você provavelmente vai encontrar a sua futura "professora", que vai lhe ensinar os pontos básicos e os mais complicados. Nas bancas, várias revistas mostram como as combinações entre esses pontos podem gerar novidades. Além disso, novos materiais, como agulhas modernas e cheias tecnologia, e uma infinidade de tipos de lãs, fitas, tecidos, miçangas, vidrilhos e um sem fim de bugigangas vão dar corpo às idéias que sua criatividade inventar. Mãos à obra!